Violência no trânsito em debate no Brasil
Enviada em 10/11/2020
O sociólogo estadunidense Donald Levine advoga, na primeira parte de seu livro “Visões da tradição sociológica”, que a sociedade contemporânea apresenta, como característica marcante, visão fragmentada do mundo. Ao tomar essa percepção como ponto de partida para pensar sobre a violência no trânsito, nota-se que muitos, ao gozar da impunidade pela falta de fiscalização nas vias públicas, se voltam somente para os próprios interesses. Desse modo, é determinante questionar como a negligência do Estado em relação aos crimes de trânsito é nociva, bem como inquerir de que forma o sistema educacional vigente pode ser um fator fundamental para o agravamento da questão, enfatizando seu caráter individualista e competitivo.
Em face desse questionamento inicial, é preciso esclarecer que, mesmo se valendo de uma legislação severa, a falta de fiscalização dos órgãos competentes prejudica o cotidiano dos motoristas e passageiros brasileiros, construindo um sentimento de impunidade no indivíduo, visto que o descaso com a punição adequada os livra de inúmeras complicações após cometer uma ou outra infração. Aliado a isso, o processo seletivo de novos condutores, sem aprofundamento psicológico e motor, colocando pessoas inaptas a direção, consequentemente leva a desastres irreversíveis.
Convém ainda lembrar, nesse contexto, que o ensino cartesiano adotado nas escolas brasileiras acaba por contribuir para a persistência desse quadro. Isso coaduna-se ao fato de que, para Zygmunt Bauman, o ser humano tende a agir na irracionalidade. Isto posto, os alunos, moldados por um sistema educacional que valoriza o conteudismo e a competição em detrimento da formação cidadã, se tornam adultos individualistas e intolerantes, características que são incorporadas em todos os âmbitos de suas vidas, inclusive em possíveis desavenças no trânsito. Finalmente, conclui-se que o exercício da empatia, desde cedo, é uma peça-chave para combater esse tipo de violência.
Por fim, entende-se que é necessário reunir esforços para resolver esse impasse. Logo, a fim de atenuar o problema, cabe ao Ministério da Educação a adoção de práticas que estimulem o trabalho em equipe. Com atividades como a prática de esportes que envolvam times, e o desenvolvimento de pesquisas acadêmicas em grupos, os alunos aprendem a respeitar o próximo, fomentando o exercício da paciência, empatia e senso crítico, habilidades que serão úteis não só ao dirigir, mas em todas as situações que envolvam o próximo. Dessa forma, pode-se pensar em um futuro em que esse atroz cenário seja superado, ampliando a visão fragmentada da sociedade apontada por Donald Levine.