Violência no trânsito em debate no Brasil
Enviada em 08/01/2021
“Os curiosos atrapalham o trânsito/ Gentileza é fundamental/ Não adianta esquentar a cabeça/ Não precisa avançar no sinal”. O presente trecho da música “Rua da Passagem”, de Elba Ramalho, versa sobre atitudes responsáveis, que devem ser reproduzidas no trânsito. No entanto, ao se falar do cenário real das vias brasileiras, nota-se a predominância de ações imprudentes que colaboram para o agravamento da violência no tráfego brasileiro. Nesse sentido, é colocada em pauta, não só a relação da violência no tráfego com a violência urbana, mas também sua relação com a busca por progresso.
Em primeiro lugar, verifica-se a conexão entre violência pública e das vias. De acordo com a teoria “habitus”, de Pierre Bourdier, a sociedade incorpora as estrururas que lhe são impostas, e as reproduz, tomando-as para si. Paralelamente, ao serem constantemente impostas formas de condutas agressivas, a reprodução de práticas violentas no trânsito não passa de uma de uma consequência direta da incorporação de posturas ofensivas por parte do tecido social. Nesse contexto, dados como o do Observatório Nacional de Segurança Viária(ONSV), que apontam o estado de Alagoas como o maior tanto em índice de violência pública quanto no trânsito, corrobora a ideia de Bourdier, na medida em que é demonstrada a forma como se dá a reprodução da agressividade incorporada pela sociedade. Desse modo, é observada uma convergência entre as diferentes formas de opressão.
Outrossim, vale ressaltar a constante busca por progresso como fator contribuinte para as agressões nos tráfegos. Segundo Byung Chul Han, em sua obra “Sociedade do Cansaço”, a contemporaneidade, com seus avanços técnico-científicos, impulsionou as pessoas, numa busca constante por realização pessoal e financeira, a trabalharem incessantemente, a fim de obterem uma vida realizada e plena. Nessa perspectiva, uma sociedade paradoxalmente bem-sucedida é estabelecida; paradoxal porque se por um lado se obtém sucesso na vida econômica, podendo usufruir do conforto contemporâneo, por outro se obtém uma vida cansada, com transtornos psicológicos e uma mente mais suscetível às práticas violentas nas vias. Por conseguinte, transtornos de humores e uma mente mais agressiva, que comete mais facilmente violência tanto no trânsito quanto no ambiente urbano, são mediados por uma busca compulsiva ao progresso.
Portanto, cabe ao Ministério de Infraestrutura, órgão brasileiro responsável pelas políticas nacionais de trânsito e de transportes, por meio de recursos midiáticos, como propagandas e jornais, divulgar a criação de postos de atendimento psicológico às pessoas que vivenciam constantemente o trânsito e as formas de agressões presentes nele, a fim de que elas não incorporem e reproduzam a violência, tendo uma mente mais saudável. Dessa forma, o cenário ideal apresentado na música, poderá ser tangível.