Violência policial contra negros no Brasil e no mundo
Enviada em 02/07/2020
Embora o racismo seja uma característica marcante e facilmente detectável nos indicadores socioeconômicos da população, o mito da democracia racial sobrevive no Brasil, disseminando, desde o final do Segundo Império e início da República, a crença de que escapamos do preconceito racial e a falácia de que as diversas raças vivem em harmonia por aqui. Enquanto isso, políticas de embranquecimento da população e de genocídio dos negros eram e continuam a ser empreendidas. Dora Bertúlio desvela o histórico alijamento dos negros na construção da nação brasileira, com medidas legislativas que remontam ao século XIX, como a Lei de Terras (nº 601, de 1850), que impediu indiretamente a ocupação das abundantes áreas livres pelos escravos, e o Decreto nº 528, de 1890, que proibiu a entrada no país de africanos aptos para o trabalho. Ana Flauzina evidencia que a seletividade do sistema penal tem o racismo como principal elemento e se constitui como parte importante de uma engrenagem genocida que atua para eliminar o segmento negro do povo brasileiro. Entretanto, sequer lemos autores e autoras negros. A história dessas pessoas e o ponto de vista delas não nos interessam. Não obstante a luta de tantas pessoas e organizações negras tenha conquistado o reconhecimento de direitos no Brasil, o preconceito racial e seus efeitos permanecem fortes em nossos dias, como pode ser observado desde as estatísticas socioeconômicas já apresentadas, passando pelo uso comum de expressões com conotação racista – tais quais denegrir, cabelo ruim, dizer que a coisa tá preta – até a atuação do aparato repressivo do estado. Diante deste, o racismo pode ser encontrado nos sujeitos considerados criminosos, nas vítimas dos crimes, nas condutas consideradas delituosas, no âmago do controle social. O assassinado, o preso provisório, o condenado por tráfico, quem é parado pela polícia, as famílias que têm suas casas invadidas, todos têm uma mesma cor. A cor da raça que foi escravizada e continua sendo oprimida. Se não considerarmos ingenuamente tudo isso muita coincidência, resta-nos o racismo evidenciado. Se o reconhecemos e não lutamos contra ele, somos cúmplices.
A oportunidade de decidir se continuaremos sendo coniventes e beneficiários dos privilégios da branquitude ou faremos algo para lutar contra o racismo apresenta-se a todo instante. Enquanto você não decide, pessoas negras continuam morrendo por ser quem são e a sua vida segue como se valesse mais do que a de George Floyd, do que a do menino João Pedro, do que a de Marielle Franco ou de todas as outras pessoas negras das quais vocês poderá esquecer em alguns dias.