Violência urbana no Brasil
Enviada em 20/08/2019
No Brasil, em decorrência da falta de criticidade de muitos cidadãos, tornou-se corriqueira a compreensão de que violência urbana não afeta drasticamente a dinâmica atual. No entanto, embora essa perspectiva permaneça no senso comum, naturalizando esse modo de pensar, é preciso notar o quanto esse ponto de vista é ingênuo ao possibilitar que o indivíduo se isente da culpa e aponte culpados.
A desigualdade social e o preconceito são possíveis origens desse problema. O aumento da criminalidade tem relação direta com essa questão. A impunidade passa a ser um estímulo para sua persistência. Esses entendimentos sobre a agressão citadina, mesmo que simplistas, tendem a ressaltar fatores como os mais de 60 mil assassinatos em menos de um ano em 2016, segundo o Atlas da Violência. Em geral, quando a sociedade não se predispõe a assumir posturas críticas e sensatas, toda a atualização de valores fica propensa a exaltar padrões de conduta nocivos e desvirtuados que banalizam tal problema. Como se não bastasse, há de se atentar, também, à forma perniciosa como diversos segmentos sociais se comportam diante desse assunto, ao subestimar dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada que apresentam que mais de 50% das mortes de jovens são violentas. Portanto, essa questão tem a capacidade de agredir o presente e violentar o futuro.
Por conta disso, no debate acerca da hostilidade vivida em cidades, é preciso enfatizar a urgência do investimento em um maior senso de corresponsabilidade coletiva. Dessarte, em consonância com as ideias da Teoria da Coesão Social, de Durkheim, e do poeta John Donne, não se deve perguntar por quem dobram os sinos, deve-se notar que dobram por todos. Desse modo, é possível evitar a proliferação de posturas meramente acusatórias que, além de desprezarem a atuação pouco eficaz ou inexistente de agentes públicos, também agenciam o aborto de sonhos e o assassinato de esperanças, ao passo que esse obstáculo social é um problema de segurança e saúde públicas. Sob essa égide, mais do que se eximir da culpa para apontar culpados, os brasileiros devem atentar-se ao seu poder de ingerência e resolução.
Sem dúvidas, quando restrita a fatores inoportunos, qualquer iniciativa contra a violência urbana está fadada ao insucesso. Assim, faz-se necessário que o Estado, por meio da parceria entre os Ministérios da Segurança e da Educação, assegure o ensino de qualidade a todas as fases escolares, o que estimula o desenvolvimento de criticidade para inverter o paradigma atual, e aumenta as possibilidades de formação e, consequentemente, de trabalho, o que diminui a fração marginalizada da população. Afinal, parafraseando o filósofo grego Heráclito, a mudança deve ser o princípio fundamental de tudo.