Violência urbana no Brasil
Enviada em 20/11/2020
O romance de Jorge Amado, Capitães de Areia, traduz em suas páginas a trajetória de um grupo de jovens rapazes de rua, tendo como líder Pedro Bala, que rouba para garantir sua sobrevivência. Apesar de fictício, a narrativa é insistentemente presente na realidade brasileira, principalmente no que tange à violência urbana e a desigualdade social. Dessa forma, é imprescindível analisar como a falta de diálogo sobre as causas da criminalidade e a impunidade policial influenciam na persistência da problemática no Brasil.
Mormente, é necessário ressaltar que a desigualdade social é deixada de lado nos debates sobre a violência urbana. De fato, com a intensa desigualdade existente, há privação de certos recursos e direitos a indivíduos. Com isso, configura-se um impedimento de ascensão social, haja vista o pouco acesso a subsídios econômicos, educacionais e de saúde a uma parcela da população, deixando esses segregados da sociedade e à margem da criminalidade. Segundo o Relatório do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, o Brasil é o sétimo país mais desigual do mundo, sendo necessárias políticas públicas eficientes para alterar esse cenário.
Ademais, a violência policial, crescente nos centros urbanos, é protegida pelo aparato estatal. Tendo isso em vista, não é raro, nos noticiários, inúmeros casos de abusos de autoridade somados a letalidade nas ações policiais, nas quais as vítimas são principalmente jovens negros. Parafraseando o teórico Darcy Ribeiro, o Brasil ainda possui uma perversidade intrínseca na sua herança, por ser o último país a acabar com a escravidão. Consoante a isso, é imprescindível que, para sanar o imbróglio da violência urbana perante a sociedade brasileira, serão necessárias não apenas políticas públicas eficientes, como também a retirada de privilégios policiais, de forma que esses possam ser julgados efetivamente pela brutalidade das suas ações.
Destarte, é incontrovertível que a guerra nas ruas brasileiras possui raízes profundas e precisa ser resolvida. Sendo assim, faz-se necessária uma reeducação do Governo e da sociedade. Nesse contexto, o legislativo pode criar penas mais duras para os crimes de abuso de poder, de forma a impactar os agentes de segurança pública, pondo obstáculos para a efetivação das mortes arbitrárias causadas por esses. Assim como ONGs, que possuem finalidade educacional, podem oferecer palestras nos municípios acerca da desigualdade social e suas consequências, assim como o poder do voto para mudar essa conjuntura, para conscientizar a população a escolher representantes preocupados em alterar o cenário desigual tupiniquim. Assim, a problemática será mitigada e histórias como dos Capitães de Areia permanecerão apenas nas páginas de um romance.