A eficiência da política antidrogas brasileira

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    José Saramago, em sua obra "Ensaio sobre a cegueira", retrata a história de uma epidemia que deixa centenas de pessoas cegas. Entretanto, o autor promove uma análise sociológica contemporânea na qual a perda de visão simboliza uma cegueira moral em que os indivíduos passam a observar apenas os seus próprios interesses. Fazendo um paralelo com a realidade brasileira, é possível notar que muitos cidadãos parecem estar "cegos" quanto à eficiência da política antidrogas do país, uma vez que ela é inoperante não só por conta da fraca educação pública, como também pela desigualdade jurídica.
          Em primeiro plano, é indubitável que combater a drogas com a educação é medida muito mais eficaz do que com a repressão policial ostensiva. Parafraseando Martinho Lutero, o dinheiro investido em educação seria menor que o gasto com armas e traria mais benefícios. Todavia, o que se vê no Brasil atual é o contrário: com a promulgação da Lei contra as drogas em 2006, a polícia enfatiza a prisão do traficante à medida que a prevenção, o tratamento e a reinserção social do indivíduo é gradativamente esquecida pelo governo. Desse modo, a lei se torna improdutiva, haja vista que esse problema apenas superlota o sistema carcerário sem agir na raiz do problema, que é a fraca base educacional do país.
          Além disso, a desigualdade jurídica que assola o Brasil também contribui para a sua frustrante política antidrogas. De acordo com George Orwell, no seu livro "A Revolução dos Bichos", os animais são todos iguais, mas uns são mais iguais que outros. Fora da literatura, nota-se que a realidade brasileira se assemelha à frase do autor, visto que, pelo fato de não haver um critério definido no que se refere à diferença entre quem é traficante e quem é usuário, essa decisão é feita, muitas vezes, com base em características raciais e socio-econômicas. Ou seja, o homem negro e pobre portador de drogas é mais frequentemente visto como traficante do que o homem branco e rico também portador, ratificando o pensamento de que as pessoas são tratadas, juridicamente, de forma desigual. 
          Sob essa análise, fica evidente que a política antidrogas brasileira é falha. Sendo assim, cabe à sociedade pressionar o Governo Federal e o MEC para que não somente seja feita uma melhora no sistema público educacional do país, como também que seja criado, dentro dos presídios, um sistema de ensino escolar e cursos técnicos, para o detento ser reinserido na sociedade e no mercado de trabalho após ser liberto. Ademais, o Poder Legislativo deve adicionar um critério de diferenciação entre traficantes e usuários, a fim de atenuar a desigualdade jurídica. Assim, certamente, a eficiência dessa política será expressiva e a sociedade moralmente cega, discutida por Saramago, voltará a enxergar.