A persistência do “jeitinho” na sociedade brasileira.

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    O final da história é sempre o mesmo: Zé Carioca, o papagaio malandro e espertalhão, sempre consegue obter algum tipo de vantagem pessoal em cada situação. Criado pelos estúdios de Walt Disney, o personagem de história em quadrinhos representa uma concepção caricata do “jeitinho brasileiro”, expressão eufemística para justificar pequenos atos de corrupção e inobservância das normas sociais, com o fito de sobrepor interesses pessoais diante da coletividade. Nesse contexto, para combater a persistência da acepção positiva dessas atitudes é indispensável uma atenção especial por parte de políticas educacionais específicas. 
           Em primeiro lugar, é indubitável que o “jeitinho brasileiro” é visto como um aspecto positivo na construção cultural do país. Desde furar a fila no banco, até vincular a prática de suborno a uma melhor prestação de serviço, fazer uso de subterfúgios pessoais para justificar a violação de leis e costumes é amplamente aceito e, muitas vezes, visto como uma virtude do indivíduo. Nesse diapasão, Sérgio Buarque de Holanda, sociólogo brasileiro, em “Raízes do Brasil”, sustenta que essa posição acrítica frente a esses episódios encontra respaldo no conceito de “homem cordial”, representando aquele que sobreleva as relações afetivas e pessoais, colocando-as, muitas vezes, acima das normas e regras sociais. Essa compreensão é indispensável para se debater o problema. 
           Em segunda análise, o individualismo pautado na busca por uma vantagem pessoal levanta questionamentos de ordem ética e, consequentemente, educacional. Nesse prisma, a filosofia aristotélica ressalta a importância da ética enquanto mecanismo de dever, que fundamenta a convivência harmoniosa em sociedade, ao passo que estimula o cumprimento de leis e regramentos, devendo ser trabalhado e transmitido enquanto valor pedagógico. Assim, a desmistificação acerca do “jeitinho brasileiro”, bem como sua invalidação enquanto valor positivo, perpassa por uma análise das práticas educacionais, visando a inserção do indivíduo enquanto ser social. 
           Evidencia-se, portanto, a necessidade de políticas públicas educacionais específicas para mitigar a persistência do “jeitinho brasileiro”. Para isso, é substancial que o Ministério da Educação, em parceria com as prefeituras e universidades, promova debates em escolas e centros comunitários, visando elucidar a população sobre a importância das normas éticas para o convívio social. Ademais, é vital a participação de sociólogos e pedagogos, com o fim de discutir e evidenciar o caráter negativo e condenável desse tipo de conduta, estimulando um posicionamento crítico dos indivíduos. Dessa maneira, o famoso “jeitinho brasileiro” tornar-se-á sinônimo de corrupção e, consequentemente, algo reprovável, longe do eufemismo e da comicidade do personagem da Disney.