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    Brás Cubas, personagem do autor Machado de Assis, admitiu não ter transmitido legados da "nossa miséria", já que não teve filhos. A excessiva preocupação sobre sua imagem, conduta e corpo é uma das principais críticas à burguesia, segundo a escola literária realista. De forma análoga, a cibercondria é uma condição de obsessiva preocupação, com base em informações na internet, acerca da ideia de se ter uma doença grave. Esse mal da era digital é, sobretudo, reflexo das mudanças comportamentais causadas pelos fenômenos das sociedades líquidas e da cibercultura.
       Em primeiro plano, a cibercultura revolucionou os padrões de comportamento acerca do acesso à saúde. Consoante dados do IBGE, apenas vinte e cinco por cento dos brasileiros possuem planos de saúde, muito embora setenta por cento deles detenham acesso à internet. Nesse contexto, a maioria da população depende de um sistema público de saúde ineficaz devido à sua alta demanda em hospitais, UPAs e postos de saúde - fato que põe em xeque a busca por um profissional para a resolução de doenças. Assim, principalmente para as classes C, D e E, a internet é o primordial meio de acesso à informação médica, a qual, infelizmente, nem sempre está correta nos sites. Tal realidade é impulsionadora do problema da cibercondria, uma vez que o conhecimento médico (restrito à uma pequena parcela da população) é sinônimo de temor e insegurança para esses indivíduos.
       Outrossim, a hipocondria cibernética relaciona-se aos transtornos mais recorrentes das sociedades hodiernas - ansiedade e depressão. Dessa forma, em "Amor Líquido", o sociólogo Zygmunt Bauman afirma que as relações pós-modernas estão superficiais, voláteis, fáceis de se romper. Com efeito, os transtornos de ansiedade e depressão emergem diante da liquidez das relações primordiais. Nesse sentido, tais disfunções no espaço cibernético possuem uma "nova roupagem" através do fenômeno da cibercondria, pois, assim como a ansiedade é um mal que se preocupa obsessivamente com a possibilidade de coisas futuras,  a cibercondria representa uma preocupação excessiva com a eventualidade de se ter uma doença grave. 
       A doença da era digital é, portanto, produto das disfunções contemporâneas nos âmbitos social e mental. Sendo assim, cabe ao Ministério da Saúde promover a elucidação acerca da cibercondria, mediante propagandas e informes que detenham as condutas necessárias ao se navegar na internet para reter informação médica. Assim, com o fito de tornar a hipocondria cibernética um problema a ser superado, objetiva-se diminuir os impactos que a ansiedade impõe aos indivíduos, os quais, assim como Brás Cubas, limitam-se de novas experiências devido à excessiva preocupação com formas de agir e pensar banais.