Dilemas da doação de órgãos

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    O princípio de justiça e bioética médica assegura a todos o direito à saúde e à vida utilizando-se todos os métodos legais da atividade científica para aqueles que necessitam, não fazendo diferença sua classe, cor, religião ou raça. Nesse sentido, o Brasil é líder no que tange ao transplante de órgãos, visto que possui o maior sistema de saúde pública especializado no assunto. Portanto, é paradoxal que as burocracias e os impasses que esse sistema enfrenta ainda agreguem certa ineficiência nesse processo –cuja não permanência nos hábitos brasileiros constituem um problema ainda maior- haja vista as longas listas de espera enfrentadas por quem precisa de um transplante para sobreviver.
         Em primeiro plano, destaca-se como uma das principais dificuldades enfrentadas para a propagação da cultura da doação de órgãos no Brasil a tamanha burocracia enfrentada para executar o processo. No caso de falência cerebral do doador, são necessários dois laudos assinados por neurologistas para que se possa só então pedir a autorização da família para realizar a doação. No entanto, cabe lembrar que as famílias muitas vezes se opõem ao ato, seja pela emoção do momento de perda, seja por motivos religiosos, esses últimos se sobressaem, visto que a Igreja ainda exerce grande influencia na mente dos brasileiros. Nesse contexto, o cientista Marcelo Gleiser explica que essa situação só poderá ser resolvida quando cada uma das esferas –ciência e religião- se preocuparem apenas com o que as diz respeito, sempre respeitando os espaços os quais à outra foi reservado. 
          Paralelo a isso, é importante ressaltar que a doação de órgãos também pode –e deve- ser feita ainda em vida. Entretanto, muitas vezes a doação por conta própria só ocorre quando a pessoa necessitada é um familiar ou possui laços afetivos fortes com o doador. Assim, a lista de espera por órgãos como rim, medula óssea e partes do fígado ainda é numerosa, embora a sua diminuição não ponha em risco a vida do doador. Percebe-se, pois, que o principal impedimento a cultura do transplante de órgãos de pessoas vivas consiste no fato de que essa atitude não consta como hábito na rotina dos brasileiros, os quais só se sentem encorajados a doar quando experienciam empiricamente, por meio de terceiros, o medo de ter um prazo para viver.
          Em prol de incentivar a doação de órgãos no país, é necessária a redução das barreiras impostas socialmente para que isso ocorra. Impende, pois, que o Ministério da Saúde desenvolva e divulgue uma espécie de “Carteirinha do Doador”, na qual pessoas interessadas em voluntariarem-se nesse processo possam indicar seu desejo, ainda em vida, da doação de seus órgãos caso venham a ter morte encefálica. Assim, os hospitais não dependerão da autorização familiar após o óbito e os órgãos serão transportados para um novo receptor assim que possível sem constrangimento perante a família.