Dilemas da doação de órgãos

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    "A solidariedade é o sentimento que melhor expressa o respeito pela dignidade humana", disse o escritor Franz Kafka. É justamente esse sentimento de solidarizar-se que permite ao ser humano doar e consentir a doação de órgãos de seus familiares. No entanto, tem-se observado, que apesar dos avanços nos indicadores, o número de doadores ainda é insuficiente frente às longas listas de pacientes que necessitam de transplante no Brasil. Isso decorre, principalmente, da recusa de familiares em autorizar a retirada de órgãos nos momentos pós-morte e da falta de empenho do Estado em promover conscientização efetiva da população sobre o tema.
        Em primeira análise, observa-se que ainda há resistência por parte dos familiares em permitir a doação dos órgãos dos entes queridos após o diagnóstico de morte encefálica. Essa resistência, de acordo com a Associação Brasileira de Transplante de Órgãos (ABTO), está muito associada a fatores éticos e religiosos e ao desconhecimento acerca do significado de morte cerebral e ao desejo de doação do paciente quando em vida. Desse modo, os índices de doação crescem lentamente, enquanto milhares de pessoas ainda morrem enquanto esperam por um órgão. Sobre isso, dados do Ministério da Saúde revelam que cerca de 1150 pacientes que necessitavam de transplantes morreram no primeiro semestre de 2017.
        Outrossim, a ausência de programas de Governo que promovam a conscientização sobre o processo e a importância da doação, dificultam a adesão da sociedade brasileira ao tema. Pois, como disse o escritor Gilberto Dimenstein, só existe opção quando há informação. Ademais, o assunto morte ainda é considerado tabu nas rodas de conversa, principalmente nos seios familiares, visto que representa um momento de futuro sofrimento. Assim, as decisões sobre retirada de órgãos e tecidos acabam sendo tomadas em momentos de fragilidade extrema e sem discussões prévias, provocando muitas vezes posicionamentos equivocados.
          Torna-se evidente, portanto, que a falta de engajamento da sociedade e a ineficiência do poder público, contribuem para relutância no tocante à doação de órgãos no Brasil. Nesse sentido, é fundamental que as famílias dialoguem sobre a questão da morte e possibilidade de doação, expondo suas vontades verbal e/ou por escrito, para que sirva de suporte à possíveis futuras decisões. Bem como, o Governo Federal, através dos Ministérios da Educação e da Saúde, deve promover um programa nacional de incentivo à doação de órgãos, em parceria com secretárias estaduais e municipais, a fim de informar quanto aos aspectos e procedimentos relacionados a essa prática. Dessa forma, será possível elevar o número e doadores, perpetuando a vidas e salvando outras.