Dilemas da doação de órgãos

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    Na civilização egípcia os faraós além de mumificados eram sepultados ao lado de órgãos vindouros de sacrifícios que lhe serviriam após a reencarnação. De maneira análoga, nos tempos hodiernos, apesar de significativos avanços medicinais e de mudanças na hierarquia social, a doação de órgãos continua sendo um tema cercado por valores dogmáticos. Dessa forma, a demanda por doadores, no Brasil, é, consideravelmente, maior do que a oferta, principalmente, devido à desinformação sobre a segurança e funcionamento do procedimento e a má distribuição de centros capacitados à operação no território. 
       Mormente, o principal empecilho ao aumento do número de transplantes de órgãos é devido ao injusto sensacionalismo sobre o tema. Conforme a Associação Brasileira de Transplante de Órgãos (ABTO) o percentual de recusas nos últimos 7 anos passou de 22% para 44%. A causa mor desse regresso está no descrédito do sistema de saúde em frente à população que, comumente, além de não confiar na transparência do serviço, não compreende o significado do diagnóstico de morte encefálica - completa e irreversível parada de todas as funções do cérebro -, imprescindível ao procedimento de retirada de órgãos. Contudo, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS) o sistema de doação de órgãos brasileiro é um dos mais conceituados do mundo. Ademais, vale salientar que na terra tupiniquim, a última palavra sobre a doação depende unicamente da família do finado, o que imprime fundamental importância ao diálogo, ainda em vida, entre qualquer cidadão e seus pares a respeito do tema. Assim, depreende-se o potencial de transformação que a informação e o diálogo podem exercer.      Outrossim, a desigual alocação de unidades de tratamento preparadas ao transplante de órgãos é determinante ao insatisfatório número de doações. Segundo a Fundação Getúlio Vargas (FGV) 68% dos centros de transplante estão no Sul e no Sudeste do país. Posto isso, quando relacionado ao fato da doação de órgãos e tecidos de um paciente ter o poder de salvar até 25 vidas, percebe-se uma saliente falha do Estado em cuidar da democracia e de direitos básicos à população de todo o território.
       De modo exposto, depreende-se a problemática da doação de órgãos no Brasil calcada em condições culturais e de assistência governamental. Portanto, é imprescindível que a sociedade civil engajada, junto a ONGs envolvidas com a causa e à mídia, organize palestras e campanhas educativas permanentes com cartazes e 'hashtags' que estimulem o diálogo a respeito do tema, com o fito de reduzir a taxa de negativa familiar e os tabus. Ainda a esses mesmos movimentos cabe a cobrança junto ao Ministério da Saúde por melhorias na distribuição dos centros de transplante por todo o país, por meio do fornecimento da estrutura e maquinário necessários. Dessarte, em uma sociedade mais consciente e empática, o número de mortes por deficiência de órgãos seria mitigado.