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    A cordialidade humana no processo de doação de órgãos
       O início do transplante de órgãos no Brasil deu-se em 1968, na cidade de São Paulo, quando a partir de então evoluíram os métodos e as pesquisas nesse âmbito. Nesse contexto, no entanto, observa-se que, embora o número de doadores tenha aumentado, ainda não satisfaz a meta proposta pela Organização Mundial da Saúde (OMS) devido, dentre outros fatores, à presença de equipes de transplante apenas em algumas regiões e à falta de conhecimento quanto à importância do processo. 
        A princípio, é válido ressaltar o crescimento observado na quantidade de unidades de transplante no país, evoluindo 12% apenas em 2016, segundo a Associação Brasileira de Transplantes (ABTO). Por outro lado, de acordo com Lúcio Pacheco, vice-presidente da associação, a má distribuição dessas equipes é um desafio na melhoria das doações, visto que estão, principalmente, concentradas em polos desenvolvidos no sul e sudeste. Dessa maneira, em ocorrências urgentes, moradores de regiões mais afastadas não podem ser beneficiados - haja vista, também, o curto prazo que o órgão pode passar fora do corpo – além de que, na fila de espera, habitantes de regiões centrais são privilegiados pela proximidade que acaba facilitando a realização do procedimento. 
       Além disso, outro fator que limita as doações é a inércia da população brasileira, a qual não atenta para obter a carteira de doador e informações que cooperem com a permissão das famílias no momento da doação. Em pesquisa recente realizada pelo jornal O Globo, foi comprovado que o motivo mais recorrente para não se tornar doador é a falta de conhecimento e interesse; seja pela escassez de instruções na mídia e de campanhas pró-doadoras nas escolas, o brasileiro não se vê inclinado a se submeter ao processo por não reconhecer o seu real valor. Em linhas gerais, tem-se a confirmação da teoria do escritor Sérgio Buarque de Holanda: a tese do brasileiro como “homem cordial”, que se prende ao individualismo, em detrimento da compreensão da sociedade como uma esfera pública e impessoal. 
      Nessa perspectiva, para que os desafios da doação no Brasil sejam superados, mostra-se necessária uma ação conjunta entre Estado e escola. Para tanto, cabe ao Poder Público, junto à ABTO e por meio dos recursos provenientes da saúde pública, promover a construção de unidades de transplante em regiões mais diversificadas, as quais se localizariam, primeiramente, nas capitais de estados afastados do polo sul-sudeste, favorecendo o acesso de todos os brasileiros à doação. Ademais, é imprescindível que as escolas colaborem com a criação de campanhas pró-doadoras, sendo estas ministradas pelo corpo docente em sala de aula, as quais cooperarão com a formação de cidadãos conscientes quanto à importância de se esclarecer, ainda em vida, o desejo de ser um doador de órgãos para a família.