Dilemas da doação de órgãos

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    No limiar de 1950, Henriqueta Lacks, contrariando os costumes da época, teve suas células doadas para a realização de pesquisas. Devido ao fato de não possuírem uma região do DNA que codifique a produção da proteína telomerase- responsável pelo envelhecimento- suas células, ainda hoje, salvam a vida de milhares de pessoas. Todavia, percebe-se, atualmente, que os paradigmas e estereótipos tangentes à doação de órgãos persistem intrinsecamente ligados à sociedade hodierna, tornando indispensável a tomada de medidas que resolvam a questão.
        Primeiramente, é indubitável que a insuficiência estatal esteja entre as causas do problema. Segundo Saint-John Perse, a democracia, mais do que qualquer outro regime, exige o exercício da autoridade em prol de se assegurar o bem comum. Contrariando a tese do filósofo, o que se observa na contemporaneidade é o exacerbado tráfico ilegal de órgãos que, no Brasil, contribui para o reduzido número de doações desses. Isso se deve, sobejamente, devido à incredulidade da população sobre a viabilidade do processo, já que não sabem o destino final da doação.
       Outrossim, é incontrovertível que a problemática está longe de ser resolvida. Segundo Emille Durkheim, o fato social é uma maneira coletiva de agir e de pensar dotada de generalidade, exterioridade e coercitividade. Nesse contexto, pode-se encaixar o empecilho associado à doação de órgãos na tese do sociólogo, haja vista, que a preponderância de paradigmas e costumes, passados geração a geração, contribuem paulatinamente para o reduzido número de doações – que em mais de dez anos, não chegaram a 24 mil, conforme Ministério de Saúde. 
         Destarte, é evidente que medidas são necessárias para mitigar o impasse. Num primeiro momento, é indispensável que as esferas públicas estaduais e municipais, em consonância com o policiamento civil e militar, criem medidas de fiscalização e combate ao tráfico ilegal de órgãos aumentando, por conseguinte, a doação por parte da população. Ademais, seria pertinente a atuação das ONGs, as quais por meio do ativismo social, demostrem à população os benefícios e a importância dessa doação, servindo de medida paliativa para se atenuar a influência dos paradigmas e estereótipos tangentes ao fato. Quem sabe, assim, a problemática deixe de ser uma constante associada à sociedade hodierna.