Dilemas da doação de órgãos

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    O filme francês Coração e Alma retrata muito bem a realidade da doação de órgãos, visto que apresenta as dificuldades enfrentadas no momento de luto, porém, a família vence o individualismo e opta por doar os órgãos do falecido. Analogamente, essa prática nem sempre obtém êxito no Brasil, uma vez que a falta de informação e debate sobre esse processo cria tabus sociais que influenciam negativamente a família do falecido, de modo a impedir que muitos órgãos sejam doados, exacerbando, assim, o número de pacientes na fila de espera. 
     Em primeiro plano, o processo da doação de órgãos, no Brasil, enfrenta o empecilho de famílias receosas e individualistas. Segundo o sociólogo polonês, Zygmunt Bauman, a imposição da “modernidade liquida” promoveu a substituição da solidariedade pelo individualismo, colaborando para a prioridade dos interesses particulares dos indivíduos. Seguindo essa linha de pensamento, cerca de 43% das famílias são influenciadas por esse novo período estudado por Bauman, visto que recusam a doação de órgãos dos entes que faleceram por morte encefálica, segundo o Registro Brasileiro de Transplantes. Com isso, a esperança de muitos pacientes a espera por órgãos é adiada por tempo indeterminado. 
    Outrossim, o pouco debate do assunto na sociedade cria obstáculos para o incentivo da doação de órgãos no país. Em função disso, apesar do indivíduo aspirar à doação, cabe à família a decisão final, a qual pode ser influenciada negativamente pela “modernidade líquida” e pela carência de conhecimento acerca do processo, já que existe pouca divulgação e insuficiente apoio às famílias no momento de luto. Como consequência, percebe-se a crescente quantidade de enfermos a espera por órgãos: o país conta com mais de 31 mil pacientes, de acordo com os dados da Associação Brasileira de Transplantes. Desse modo, não é razoável o silêncio perante as famílias sobre o desejo de ser doador, pois é fundamental para agilizar o procedimento quando necessário. 
    Infere-se, portanto, o primordial consentimento das famílias para que outras vidas sejam salvas, assim como representado no filme francês. Para tanto, o Ministério da Saúde, mediante o fornecimento de psicólogos, deve oferecer apoio e incentivo à doação de órgãos no Brasil, explicando os procedimentos e apresentando a importância para o paciente em expectativa, com o fito de minimizar a quantidade de pessoas na fila de espera por transplantes. Somando-se a isso, os órgãos controladores da mídia, por meio de ficções engajadas na mídia televisiva, devem transmitir a importância do diálogo sobre essa questão em família, de modo a esclarecer a opção pessoal do indivíduo, a fim de evitar maiores discussões e obter uma quantidade superior de órgãos doados no Brasil.