Dilemas da doação de órgãos

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    "Anjos da Vida - Em busca da doação de órgãos" é um documentário que mostra como é o trabalho do Serviço de Procura de Órgãos e Tecidos (SPOT) do Hospital de Clínicas da Unicamp. A obra reflete sobre um assunto que interessa a todos os brasileiros - a captação de órgãos. Nesse cenário, embora nos últimos anos o índice de transplante de órgãos no Brasil tenha crescido, alguns obstáculos ainda impedem que o nível do serviço seja eficiente. Diante disso, vale analisar como a desinformação da população, assim como a ausência de preparo das equipes médicas, influenciam na problemática. 
        A princípio, a desinformação da população é um dos principais responsáveis pelo entrave na doação de órgãos. Isso decorre da falta de divulgação de campanhas educativas, as quais auxiliariam no correto esclarecimento da sociedade acerca do assunto. Segundo Roberto Manfro, presidente da ABTO (Associação Brasileira de Transplante de Órgãos), o índice de transplantes poderia ser mais satisfatório se a população tivesse mais acesso à informação. Como exemplificação está o caso da Espanha, país campeão em doação de órgãos devido à sua política governamental muito forte. Com isso, indivíduos com maior consciência tendem a vencer a ignorância e os preconceitos, agindo em apoio à causa.
      Ademais, convém frisar que a negação familiar continua crescendo, afetando a oferta de órgão. Conforme dados da ABTO, 47% das famílias se recusam a doar os órgãos de parentes com morte cerebral. Isso acontece devido ao despreparo das equipes médicas, as quais abordam os familiares de maneira abrupta, desrespeitando seu luto e não fornecendo uma explicação sobre os mínimos detalhes da operação. Em virtude disso, a família tende a acreditar que o parente pode ainda estar vivo, visto que a estrutura corporal continua operando apesar da morte cerebral. Como reflexo, se recusam a doar seus órgãos, tornando a fila de transplante cada vez mais extensa. Por conseguinte, essas pessoas na espera, eventualmente, não serão mais capazes de exercer sua condição de cidadão, já que, como afirma Rousseau, a cidadania é entendida como sendo o próprio direito à vida em plenitude. 
          Torna-se evidente, portanto, a adoção de medidas necessárias para que a doação de órgãos deixe de ser um impasse para os brasileiros. Nesse contexto, compete ao Ministério da Educação - em parceria com médicos especialistas, famílias de doadores e pessoas transplantadas - divulgar propagandas de cunho educativo, além de palestras para a comunidade, com o intuito de disseminar o conhecimento acerca da doação de órgãos e incentivar o apoio à causa. Outrossim, cabe ao Ministério da Saúde aperfeiçoar o treinamento das equipes médicas, com o auxílio de psicólogos, a fim de melhorar sua abordagem e o diálogo com os familiares. Desse modo, as pessoas na fila de espera poderão exercer sua condição de cidadão.