Dilemas da doação de órgãos

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    Sonho ufanista 
                Na obra pré-modernista “Triste Fim de Policarpo Quaresma”, do escritor Lima Barreto, o protagonista acredita fielmente que, se superados alguns obstáculos, o Brasil projetar-se-ia ao patamar de nação desenvolvida. Hodiernamente, é provável que o major Quaresma desejasse zerar a fila de espera por um transplante, situação almejada por qualquer sociedade civilizada, mas que ainda não foi atingida no país. Esse cenário é corroborado, principalmente, pela inobservância estatal somada à atual mentalidade da sociedade. 
                Em primeiro lugar, é notório que a negligência do governo está na origem do problema. De acordo com o economista inglês John Maynard Keynes, é dever do Estado suprir as necessidades básicas de seus cidadãos e assegurar lhes o bem-estar. Contudo, o poder público vem, há décadas, ignorando sua responsabilidade de promover pesquisas médicas na área de transplantes e, além disso, tem negligenciado seu dever de estimular a população a engajar-se em transplantes de orgãos, como medula ossea e fígado. Logo, uma mudança nesse panorama requer que o Estado assuma um papel mais ativo no setor. 
                 Além disso, negação por parte dos familiares intensifica esse fenômeno. De acordo com filosofo e psicologo alemão Kurt Lewin, o comportamento do ser humano é consequência de uma junção entre características pessoais e interferência do ambiente. Por conseguinte, se a mentalidade do grupo tem o poder de interferir nas noções de mundo do indivíduo, não é surpreendente que muitos conjugues e tutores se recusem a doar os órgãos de vítimas de morte cerebral, haja vista que o ideário vigente na sociedade ainda considera a essa prática um desrespeito aos mortos. 
                Denota-se, portanto, que reduzir a fila de transplantes constitui um sério desafio para o país. Ao Estado, representado na figura de Ministério da Saúde, compete intensificar os estudos na área por meio da distribuição de bolsas de pesquisas à docentes de universidades públicas, objetivando descobrir métodos de transplantes com menor risco de rejeição ao paciente. Paralelamente, a escola, estimuladora do pensamento crítico, deverá inserir o debate na sociedade por meio da exibição de filmes que abordem a temática, com o intuito de tornar a educação mais persuasiva e formar jovens atentos e conscientes à beleza da doação de órgãos. Assim, com Estado e sociedade civil unindo forças em prol de um país mais justo e humano, o sonho ufanista do major Quaresma estará mais próximo de tornar-se realidade.