Dilemas da doação de órgãos

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    Segundo o escritor Franz Kafka, a solidariedade é o sentimento que melhor expressa o respeito pela dignidade humana. Desde o primeiro transplante realizado no Brasil, em 1968, até a atualidade, o país se consolidou como exemplo internacional dos efeitos do altruísmo coletivo em prol da saúde pública. Contudo, a recusa de doação, por parte das famílias, ainda é de quase a metade dos potenciais doadores, e a lista de espera tem expectativas que podem chegar a cinco anos, em algumas localidades.
          Nesse processo, o Sistema Único de Saúde desenvolveu uma lista única nacional regulamentada pela Lei 9.434/97, onde são constados todos os pacientes com necessidade de transplante de órgãos. Noventa por cento dos procedimentos são realizados pelo sistema público, além de ser garantido os medicamentos pós-cirúrgicos; sendo a maior proporção do mundo. No que tange o público da fila única, cabe a análise de Sócrates, quando afirma que a vida sem ciência é uma espécie de morte. O Brasil, mesmo como país emergente, interseccionou ciência e democracia de maneira louvável, sendo a saúde um direito fundamental de acordo com a Declaração Universal dos Direitos Humanos. 
          No entanto, a desigualdade interestadual no Brasil, refletida em concentração de infraestrutura para a realização dos procedimentos, é fator determinante, visto que o pulmão, por exemplo, deve ser transplantado em, no máximo, 6 horas, privilegiando os moradores de grandes centros. Ademais, a média de doadores efetivos no Sul é de 29,7 por milhão de habitantes, enquanto a do Norte é de 4,1. Outrossim, muitas famílias, no processo do luto, se mostram receosas em doar os órgãos do familiar. A abordagem adequada do profissional da saúde é determinante para a doação efetiva, além do que o luto dos familiares doadores de órgãos foram menos penosos que os das famílias não doadoras, como observado pela Coordenadora-geral do Sistema Nacional de Transplantes.
       Infere-se, portanto, que é de extrema necessidade, a priori, o financiamento da União para o oferecimento de faculdades de medicina e hospitais especializados no interior do Brasil, a fim de reduzir a desigualdade do tempo de espera da fila em algumas localidades menos favorecidas. Por sua vez, cabe ao MEC propor incluir nas matrizes curriculares dos cursos de enfermagem e medicina a tanatologia (estudo da morte e seus fenômenos relacionados), com o fito de garantir a melhor abordagem possível no momento da solicitação da doação. Por fim, junto ao censo realizado pelo IBGE, poder-se-ia indagar a aspiração de doar órgãos. Dessa forma, o debate acerca do tema sera incentivado no plano familiar. Isto posto, o que o dramaturgo Victor Hugo proferiu se tornará cada vez mais presente no país: morrer não é acabar, é a suprema manhã.