Esporte e cidadania na sociedade brasileira

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    Em meados do século XX, o artista plástico Candido Portinari retratou, no quadro "Os retirantes", uma família que sai de uma região à outra em busca de condições melhores de vida. Com o objetivo de evidenciar o cotidiano do Brasil, o autor da obra denuncia os problemas sociais do país. Semelhante à narrativa, a população brasileira vivencia, hodiernamente, uma peregrinação à procura da valorização do esporte para a atividade da cidadania na sociedade. Desse modo, convém analisar a inobservância estatal e a lenta mudança da mentalidade social como elementos fundamentais da problemática.
          Segundo Thomas Hobbes, o Estado é responsável por garantir o bem estar da coletividade. No entanto, esse conceito encontra-se negligenciado, visto que a falta de investimento das autoridades no incentivo ao esporte, em especial em comunidades pouco assistidas, pode vir a ocasionar um desvio de interesse dos jovens para atividades pouco benéficas. Tal conjuntura é ilustrada pelo fato de que, segundo o Inep, apenas 26,8% das escolas públicas de ensino fundamental possuem quadras esportivas, o que dificulta a inserção das crianças nesse campo da sociedade. Desse modo, sem o comprometimento desse setor, o problema é agravado e coloca em risco a cidadania do grupo.
          Ademais, convém avalar os efeitos que a falta de informação possui na falta de acesso ao esporte. Consoante à Teoria do Habitus, de Pierre Bourdieu, nossas práticas são resultado de condições culturais específicas de uma sociedade. Dessarte, os costumes protagonizados por antepassados de determinado grupo - ou a falta deles - são conservados e ainda ecoam na vivência dos menores, como falta de fomento à vida esportiva por parte de pais e professores. Logo, a ignorância acerca dessa conjuntura promove uma falta de iniciativa que pode, muitas vezes, melhorar as condições de vida de uma família. Dessa forma, uma mudança nos valores da sociedade é essencial para resolver o impasse.
          Depreende-se, portanto, que são necessárias medidas que atenuem a problemática supracitada. A princípio, cabe ao Governo incentivar a prática de esportes por meio da criação de quadras poliesportivas, com projetos extraescolares, em escolas e comunidades carentes. Com essa ação, as crianças beneficiadas teriam foco em atividades produtivas, a fim de aumentar sua colaboração para a cidadania. Paralelamente, cabe às Organizações Não Governamentais atuarem na distribuição de cartilhas que advertam sobre a importância do incentivo ao desporte, com o objetivo de universalizar a prática, assim como sensibilizar a sociedade a resolver os problemas gerados pela falta desse. Assim, será possível que as obras de Portinari não transmitam, ainda hoje, os impasses sociais do Brasil do século XX.